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REALITY SHOW análise


Do ponto de vista psicanalítico o vício de acompanhar reality show está associado algumas psicopatologias: o voyeurismo, por parte de quem assiste e acompanha e exibicionismo/ narcisismo aos envolvidos no programa.



O voyeurismo foi identificado como uma das formas das perversões descritas como anomalias do instinto sexual, nas últimas décadas do século XIX, por autores pré-psicanalíticos (Krafft-Ebing, 1869; Havelock Ellis, 1890-1900),cujo “... mérito foi, entretanto, reconhecer o caráter sexual de algumas perversões para as quais este caráter não era evidente” (Ey, s/d., p. 383).


Nessa nova forma de voyeurismo, em que há um interesse intenso no que o outro, enquanto indivíduo suposto igual a mim, faz e como o faz, diz e como o diz, vale supor a emergência de novos processos identificatórios.


Na satisfação obtida no espreitar a vida alheia, sentir a mesma emoção da criança que espiava pelo buraco da fechadura, reconhece-se possível nova forma de voyeurismo, tal como em Freud, que define o voyeurismo como uma forma de privilégio que nos habilita a ver o proibido.


Aos participantes eles encontram satisfação em expor-se ao olhar do outro, uma nova forma de exibicionismo. O exibicionismo identifica-se, na psicopatologia clássica, como uma necessidade incoercível de obter prazer na exposição dos genitais(ou corpo) ao olhar do outro.


A TV e a Internet exploram a pulsão de ver e seu correlativo de ser visto, um de seus maiores trunfos. Assistir esse tipo de programa trata-se de negação do real.


Ao reafirmar o interesse demonstrado por todos na contemplação direta da vida alheia e a captação imaginária desta pela televisão, isso coloca o indivíduo no patamar de angústia: viver a vida de outros.


Envolvido a ponto de agir, atuar e estabelecer dependência, a fim de efetivar um laço social perverso do tipo voyeurismo/exibicionismo/narcísico, caracterizado pelo acompanhamento em tempo integral da vida e do sofrimento do outro, abstraindo-se o sujeito do real de sua própria experiência.


Um psiquiatra francês Racamier afirma que esse tipo de entretenimento tem uma perversão narcísicase caracteriza, para um indivíduo, pela necessidade e pelo prazer prevalentes de se fazer valer a si mesmo a expensas de outrem” (1987-1992/2012, p. 22).


São sujeitos profundamente feridos em seu narcisismo, marcados pela necessidade imperativa de assujeitar o outro, para que só possa haver lugar para o si mesmo do perverso. Através de suas manobras e condutas, o perverso narcísico está em busca de um prazer específico, somente obtido ao destituir o outro de seu valor subjetivo.


Destaca-se o caráter de predação existente na perversão narcísica, que assume a forma de um exercício de poder sobre o outro que visa destruí-lo identitária e narcisicamente por meio de sua intimidação, produzindo perplexidade, paralisia, desvalorização e culpabilidade em suas vítimas. A dominação se faz de tal modo que os traços narcísicos de suas vítimas, ligados à construção da estima de si, ficam comprometidos em detrimento do seu domínio. A competição tem essa natureza, predominar, ganhar e vencer em prejuízo, sofrimento, humilhação e rebaixamento de outros.


A crítica psicossocial :

Baudrillard (2001), em sua contundente crítica sobre os "reality shows", afirma que o homem moderno, sem um destino objetivo ou metas de vida, lança-se em uma experimentação sem limites de si mesmo. A reclusão voluntária é uma espécie de laboratório de uma "sociedade telegeneticamente modificada".


Segundo Baudrillard (2001), o Big Brother é o espelho e o desastre de toda uma sociedade presa da insignificância que se curva diante de sua própria banalidade. É uma farsa integral, uma imagem reflexa de sua própria realidade. Para o autor, a audiência é grande graças à debilidade e nulidade do espetáculo: ou as pessoas assistem porque ali se reconhecem e/ ou assistem para se sentirem menos idiotas que os protagonistas.


Como disse Novaes (1996), somos atraídos pelo fútil, pela curiosidade ávida de sensacionalismo e pela excitação banal, deixando de lado nossa potência de pensar e agir. Os "reality shows" nos proporcionam tudo isso, adormecendo nossa capacidade crítica já tão abalada pela alienação de nossas consciências.


Segundo Gullo (2004), os "reality shows" são a versão moderna dos grandes circos romanos. Exploram a necessidade do ser humano de ver e participar dos problemas alheios, movido por sua incessante curiosidade, muitas vezes mórbida. Para o autor, quando o cotidiano é retratado nesses programas, torna-se uma farsa, porque tudo é programado, planejado e racionalizado: "o reality show" é o mais baixo nível do cotidiano, mostrado com tecnologia altamente elaborada com o objetivo de captar o telespectador para interesses da produção que visam ao lucro"(Gullo, 2004, p. 1).


Por que faz sucesso? A função desse tipo de programa é aprofundar a alienação, impedindo os processos de pensamento crítico. Para isso, mobilizam-se aspectos primitivos do psiquismo humano através da sedução do espectador, ou seja, acreditando-se poderoso e capaz de decidir o destino dos participantes, o público deixa-se levar pela imagem narcísica refletida na tela. O prazer advém do triunfo e da onipotência, o que acaba criando um círculo vicioso de consumo e audiência.


Referência Bibliográfica:

RACAMIER, P.-C. (2012). Les perversions narcissiques. Paris: Payot & Rivages. (Trabalho original publicado entre 1987 e 1992).

BAUDRILLARD, J. Télémorphose. Paris : Sens & Tonka, 2002.

GULLO, A. Professores da USP Discutem o "Segredo" dos Reality Shows. Disponível em: http://www2.usp.br/canalacontece. Acesso em 27 fev. 2005.

NOVAES, A. (org.) Tempo e História. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.




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