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Função paterna e Ateísmo

A clínica contempla pessoas com muitas dificuldades: desamparo/desintegração, incoerências/conflitos, sem direção e sem fé. Muitos dos conflitos atuais estão relacionados a Função paterna, visto que para a Psicanálise ela é estruturante.


Freud em Totem e Tabu= O tabu seria uma Instituição Social; Lacan no conceito Em nome do Pai explica que de "um só golpe propicia o arranjo da estrutura subjetiva nos três registros, seja ele instaurado, desmentido ou foracluído. Este significante é determinante ou melhor, o que determina a estrutura de todo indivíduo. O real, imaginário e o simbólico serão instituídos na introdução do pai."


Myssior (2010), a partir de seus estudos lacanianos, ensina mais didaticamente como essa função é processada:


"O Nome-do-Pai, que não é a pessoa do pai, mas a importância dada pela mãe à sua palavra, a esse corte fundante que é transmitido ao filho através da circulação dos desejos. O fato que pai e mãe não sejam redutíveis à qualidade de genitores, mas determinados pelo lugar que ocupam em função do sistema simbólico que o princípio do pai designa, faz do pai um significante, cuja ancoragem propicia o sistema de linguagem. É na linguagem que o sujeito se apreende em relação à parentalidade como função, advento que prepara a estrutura..." (Myssior, 2010, p.108).


A função paterna, tão necessária para a instauração do simbólico, vive sua grande crise, evidenciada por novas apresentações sintomáticas. Problemas com a imagem paterna, função o com próprio Pai como pessoa afetará a pessoa na dimensão social(aceitação de regras, normas e princípios), em termos profissionais e em sua espiritualidade(fé).


ATEÍSMO

Ateísmo em termos simples é definido com sendo a rejeição ou ausência da crença na existência de divindades e outros seres sobrenaturais. É um termo de origem grega atheos que significa “sem Deus”, sendo o ateísmo o contrário de teísmo, que é a crença na existência de pelo menos uma divindade.


No livro Entre Necessidade e Desejo: diálogos da psicologia com a religião foi possível encontrar uma referência concreta para a incidência do ateísmo. Paiva (2001) cita que “de 1900 a 1970 os agnósticos multiplicaram-se 181 vezes, os ateus 720 vezes, e os crentes das religiões históricas apenas cerca de 3 vezes (em números absolutos, os agnósticos passaram, nesses 70 anos, de 3 milhões para 543 milhões, os ateus, de 225 mil para 165 milhões)” (PAIVA, 2001, p.77).


Uma pesquisa de 2018 - Ateísmo: Taxas e Padrões Contemporâneos, do sociólogo norte-americano Phil Zuckermam indica a Suécia como sendo o pais com 85% da população não tendo nenhuma crença ou não acreditam em Deus. Depois vem Finlândia e França no topo da lista de ateus.


Já faz algumas décadas que as pessoas nascem de adolescentes, casais inexperientes, ou com relações conflituosas, sem serem falados(planejados), com Pai : ausentes, fracos, inseguros, instáveis, pedófilos, narcisistas, viciados, revoltados... que valores esses homens passam para os filhos? Como a mãe apresenta o “O homem da casa” para seus filhos? Como acreditar(ter FÉ) e se sentir seguro?


Incredulidade

A sociedade atual é marcada pelo individualismo e pela valorização de experiências individuais, onde o indivíduo é a referência, é o centro social. E isso por si só tem sido inquestionável. Cada um na “sua”, no seu tempo, com seus afazeres e “não me tirem de mim mesmo, por favor, obrigado”!


Só tem valor o que é visto pelo sujeito e vivido por ele, caso contrário, não há tanto crédito assim. Colocam-se “em segundo plano as referências das autoridades e dos antepassados. Não vale mais a institucionalização da regra e da norma ditada pelo outro, mas somente a experiência individual” (Giovanetti, 2001, p.92). O totem e o tabu começam a perder seu valor e a ficar desacreditados.


Giovanetti (2001) diz que a sociedade pós-moderna é marcada por uma tendência geral de diminuir as relações de autoridade e as dirigidas. Diz ainda que se assiste hoje à destruição de referências de antepassados, contudo ele acredita que algo é colocado no lugar dessa referência, senão o caos se instalaria. Daí se percebe o aumento do privado, de escolhas próprias, da independência das pessoas e de seu modo de viver. No lugar de autoridade dirigida, entra a valorização do indivíduo e tudo o que proporciona seu próprio bem-estar. A era do eu no centro, do eu como a única verdade.


Ao ser uno, o homem se torna só, sozinho no mundo e com isso se instala a era do vazio, do não sentido, o que pode gerar uma crise identitária. Contudo, há também os benefícios dessa era da independência, como ser sujeito e responsável por si mesmo e por suas coisas, ser dono do seu próprio destino. Mas até que ponto é saudável essa independência e essa crença no individualismo? Afinal de contas, o homem não é um homem social e vive em grupo?


Leal (2010) cita Lacan em A Família (1987) quando afirma que com a decadência da função da paterna, a sociedade tende a uma crise psicológica. Relata ainda que com a queda do pai e da família tradicional, a imagem paterna se torna frágil e desvalorizada, o que coloca em risco o ordenamento psíquico do sujeito.


Neuroses atuais, antes de fornecerem aos sujeitos modalidades de funcionamentos organizados, se encontram cada vez mais instáveis, no limite, na borda, ganhando expressão numa infinidade de distúrbios sociais e psíquicos, tais como as patologias narcísicas, as toxicomanias, a anorexia, a bulimia, a depressão, os suicídios, os transtornos psicossomáticos, as psicopatias, a delinquência, o transtorno de ansiedade e de pânico, dentre outros” (LEAL, 2010, p.84).


Ser espiritual, ter fé e recorrer ao sagrado é um privilégio de poucos!!!


Bibliografia

GIOVANETTI, J. P. Psicologia e senso religioso: a necessidade e o desejo – Modalidades da época. In Entre necessidade e desejo: diálogos da psicologia com a religião. São Paulo: Loyola, 2001, p.91-101.

LEAL, F. A. O pai ou a função paterna em Lacan de “A família”. Dissertação de mestrado apresentada a Universidade Federal de Salvador – Mestrado em família na sociedade contemporânea, 2010.

MYSSIOR, S. G. Limite do pai: a partida, a palavra, o nome. In Transfinitos. A diferença que o pai faz, v.9. Aleph – Escola de Psicanálise, 2010.

PAIVA, J. (org). Entre necessidade e desejo: diálogos da psicologia com a religião. São Paulo: Loyola, 2001.

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