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Depressão doença social



Muitos profissionais da saúde mental ou não, estão interessados no sofrimento psíquico, visto ser a psicopatologia: Depressão mobilizadora de pessoas que nos relacionamos, amamos ou as vezes até precisamos.


O debate a respeito das psicopatologias atravessa o cotidiano. A medicina, com suas práticas fundadas no princípio de racionalidade, procura causas ditas racionais, explicáveis cientificamente para elucidar os males humanos, pois assume uma visão de homem essencialmente consciente e racional.


A psicanálise adota uma concepção de sujeito atravessada pelo desejo, o sujeito do inconsciente, constituído em meio a uma realidade psíquica e social. A descoberta do inconsciente e a criação do conceito de realidade psíquica possibilitaram uma ruptura com a concepção de sujeito da consciência concebida pela modernidade (Birman, 1997, 1999; Bezerra, 1989). Nessa perspectiva, a psicanálise como teoria sobre a constituição subjetiva nos fala dos modos de organização psíquica e de como os sintomas são produzidos na interação do psíquico com o social, ou seja, do homem com o outro.


Dessa forma, a depressão pode ser vista de um ângulo que considera a construção da subjetividade, se for encarada como um fenômeno produtor de sofrimento que integra a vida humana.

Pensar sobre a configuração da subjetividade que se expressa mediante a depressão demanda, inicialmente, compreender as articulações da constituição psíquica com o entorno social e cultural do homem. Conforme afirma Foucault (1987, 1990, 1985, 1976), considerar a subjetividade como imbricada no espaço e no tempo e produzida historicamente remete a pensar sobre os modos de subjetivação. Os estudos de Foucault nos mostram o que podemos chamar de base para a compreensão de como o homem se voltou para si mesmo.


O autor discute essa questão através da análise das práticas pelas quais os indivíduos foram levados a prestar atenção a eles mesmos, a se decifrar, a se reconhecer e se confessar como sujeitos do desejo. Além do individualismo há a questão da generalização e ideal coletivo.


O desejo é moldado e formado de fora para dentro atualmente, sim as pessoas estão distanciadas de si mesmas são engolfadas e contagiadas por movimentos, tendência, posturas, atitudes, valores...externos e que passa a aderir o comportamento social, sendo semelhante a de todos. A pressão do meio impera sobre o desejo singular, assim em uma “Era do Espetáculo”de Delbourd “o que é bom é mostrado e eu que se mostra é bom” todos expõe o bom, bonito e agradável, para que possa existir e compartilhar a imagem.


“Na vida de consumo” de Bauman participar de redes sociais é vital para se manter ativo, ocupado e vivo, ter coisas, comer, títulos, filhos, viajar tudo é feito de modo coisificado para ser integrante de uma massa social e ser aceito pelo grupo torna-se regra social.

As relações às experiências de vida, ficam relacionadas à organização de aspectos da subjetividade social, que remetem à naturalização do discurso capitalista que privilegia o ter em detrimento do ser.


Foucault chamou de “artes da existência” ou “tecnologias de si” essas práticas através das quais os homens fixam regras de conduta, procuram se transformar e fazer da sua vida um valor estético. Em concomitância, elas lhes possibilitam estabelecer de si para consigo uma relação que os leva a acreditar na verdade do desejo e a relacionar essa verdade com a suposta verdade do seu ser.


Morar em outro país, achar um par, mudar de profissão, ir em festas... reproduzir o que socialmente é ditado , contudo intimamente a dor, vazio, tristeza, desapontamentos e desesperança. O deprimido se expõem, em um corpo moldado pela estética social ele também apresenta sorrisos(como o Coringa) porque precisa mostrar alegria mesmo na dor. O investimento no Self- imagem ele se ofende com comentários sobre ele nas redes sociais, já que o que mostra não é real e nem espelha seu íntimo, pois distanciado de si o abismo é maior para com quem ele se relaciona. Não olhar para si mesmo e buscar reclusão para fortalecimento não é cogitado, mas querer agradar o olhar das pessoas é supremacia.

Hoje as pessoas buscam a estetização de si mesmas e essa finalidade torna-se crucial de sua existência. O sujeito vazio e silencioso faz com que o individualismo e as relações sociais descartáveis sejam tratados como naturais nas vidas dos indivíduos, ficando assim sem raízes e diluídos.

Todos esses acontecimentos e mudanças colocam o homem num estado de desamparo e convergem para uma degradação, cada vez maior, do laço social. Esse processo se manifesta pelo aumento do individualismo, pelo fim das ilusões e pelo crescimento da depressão, que, mais do que uma miséria afetiva, vem se transformando num modo de existência.

O que interessa à psicanálise não é só a clínica no sentido do exercício terapêutico, mas também a clínica no sentido da produção do conhecimento acerca do sofrimento manifesto pelo sujeito e que converge para a compreensão da constituição do singular e do coletivo.

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